O que aprendi no Monte Roraima

Depois de dez dias intensos no Monte Roraima, sintetizo aqui o que aconteceu e alguns dos aprendizados.

Dia 1 – chegada, briefing e ida de van até a Venezuela, dormimos em um hotel
Dia 2 – saída de 4×4 do hotel as 8:30, fim de comunicação por celular e internet (pavoroso né?) – chegada na comunidade paraitepuy e inicio de uma caminhada de 15km.
Dia 3 – Caminhada de 8km, chegada ao acampamento base e uma tempestade de 2hs, seguida de sol e encantamento olhando a montanha de perto.
Dia 4 – Ataque ao cume, dores, subidas… Após passar pelas cachoeiras do Passo das Lágrimas, tempestade direto até chegar ao topo. Ao chegar ao topo, mais 1h de caminhada até chegarmos ao Hotel Sucre (uma montanha com algumas abas onde as barracas eram montadas mais protegidas.
Dia 5 – Ponto triplo (fronteira Brasil, Guiana e Venezuela) e chegada ao hotel Coati (4 ou 6 hs de caminhada com chuva intermitente)
Dia 6 – Acordar as 3:30 na esperança de ver o nascer do sol mas com chuva não tinha vista. Depois Lago Gladys abaixo de muita chuva e uma caminhada interminável.
Dia 7 – Acordamos com chuva de novo e não pudemos ver o nascer do sol novamente. Ida para o refúgio Guachero próximo ao início da descida. Com direito a visita ao vale dos cristais e a el foso. Caminhada ainda sob a chuva por 15 km. Quando chegamos no refúgio o sol apareceu e firmou. Foi onde gravei um vídeo que vou deixar o link mais abaixo.
Dia 8 – Segundo dia nesse refúgio. Dia de sol e visita a la Ventana, Catedral, as Jacuzzi e a pedra maverick.
Dia 9 – Descida da montanha (chuva no inicio, outra no meio onde ganhamos os arco íris duplo e depois sol) até o acampamento no meio do caminho. 16km.
Dia 10 – últimos 13km, depois almoço e retorno ao rasil. Chegamos de volta a Boa Vista as 20hs.

 

Os aprendizados:

Foram muitos aprendizados, e eu pretendo organizar eles ao longo do tempo agora.

Primeiro: Estar longe de tudo, enfrentando condições adversas por vontade própria, te dá uma percepção diferente do que se é capaz. Existe um momento em que acaba fôlego, força, ânimo e tudo o mais. E só o que resta é a força de vontade. Eu sei que você sabe disso, eu também sabia disso e já passei por isso mil vezes. Mas ali, na condição adversa e com esse esgotamento físico total, fica muito claro quando é a força de vontade atuando. Ainda mais que eu não consegui preparar o cardio antes. Então chegava um momento em que não existia nada além do próximo passo em direção ao objetivo.

Segundo: Ninguém está sozinho. Nunca fazemos nada sozinhos, precisamos do outro e essa relação de interdependência fica mais escancarada em uma montanha como o Monte Roraima. Seja para ser ajudado quando acaba tua água ou sente dor, seja para repartir teu material com outros que estão precisando. Tu acaba com a perspectiva do eu e vira a perspectiva do nós! Quando um precisa de algo os outros se ajudam.

Terceiro: Quando saímos do nosso estado e somos o único daquele estado em um grupo, deixamos de ter nossa individualidade e nos tornamos apenas um do coletivo. Metade do grupo te chama por gaúcho. O que é engraçado e acontece em todos os lugares. Ainda vai ser um tema legal de reflexão. Qual a diferença interna entre teu nome e um adjetivo que te define? Quais as implicações disso para tua psique?

Quarto: Tudo é possível. Com empenho, decisão, objetivo e foco, não existe NADA impossível. Pode apenas demorar mais ou menos.

Quinto: O tempo. Esse sempre presente organizador de nossa vida. Costumamos culturalmente avaliar nossa vida e momentos em termos de sucessões de acontecimentos medidos pelo tempo. Isto faz todo o sentido e é necessário na sociedade em que vivemos. Eu mesmo vivo muito com horários mil e mil coisas a fazer. Lá em cima, para que se preocupar com o tempo? Para que se preocupar se falta muito ou pouco. Pode-se realmente estar presente no agora. Dane-se se falta muito ou pouco, minha única preocupação é seguir a pessoa da frente e não escorregar. E quando estamos parados, aproveitar esses momentos únicos. Eu sempre explico isso, procuro viver isso, mas lá a sensação é milhões de vezes mais intensa.

Sexto: Ser cuidado. Como terapeuta eu sempre cuido, sempre estou cuidando dos outros. E, como diz um amigo, tenho tendencia de ser paternalista. E, a pessoa forte que resolve todas suas pendengas precisou de apoio. Sim, como não me preparei, acabei sendo o último a chegar. E o grupo te espera nos pontos de descanso, aí quando tu chega eles saem (e tu descansa menos). Na subida que era difícil, o nosso guia Humberto ficou o tempo todo do lado. Batendo papo, acompanhando no meu ritmo. E realmente foi um exercício bom. Não tem mal nenhum em mostrar suas fraquezas e permitir que os outros te cuidem. Só a presença de outra pessoa enquanto tu era o último, já dava um gigantesco ânimo. magino se tivesse subido sozinho como ficaria a minha moral.

Sétimo: A única coisa que importa realmente é o agora. Você não tem nada na vida a não ser este momento. O futuro não chegou ainda e o passado já passou. Aprenda com o passado, planeje o futuro. Mas faça isso sem culpa ou ansiedade, apenas vivendo e percebendo da melhor forma o AQUI e o AGORA!

Gratidão

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